No cenário político contemporâneo de Moçambique, a vivência partidária é frequentemente marcada por paixões intensas, lealdades rígidas e clivagens profundas. Durante os períodos eleitorais, esta polarização torna-se ainda mais evidente: cartazes de campanha são destruídos, insígnias de partidos motivam altercações e simpatizantes de diferentes forças deixam de se tratar como concidadãos para se encararem como rivais inconciliáveis. O espaço digital amplia esse fenómeno, multiplicando ofensas e transformando debates de ideias em afrontas pessoais. Perante este panorama, impõe-se uma reflexão fundamental: estamos a formar militantes dogmáticos ou cidadãos conscientes?
A militância partidária, em si, integra a dinâmica saudável de qualquer regime democrático. Os partidos desempenham um papel central na organização da vontade popular e a participação política é um direito inalienável. O problema surge quando a adesão a uma causa partidária exige a rejeição intransigente de quem pensa diferente, convertendo a arena política num palco de confrontos individuais.
Enquanto a militância se traduz na defesa de uma ideologia ou estrutura partidária, a cidadania abrange uma dimensão muito mais ampla. Ser cidadão implica exercer deveres, respeitar direitos e reconhecer que nenhuma agremiação política detém o monopólio da razão. Um cidadão consciente pode apoiar uma candidatura sem abdicar do seu sentido crítico, mantendo o respeito por quem faz escolhas distintas. Essa capacidade de discernimento é o pilar da coexistência democrática.
Na prática, todavia, a linha divisória entre a disputa legítima e a hostilidade tem-se mostrado frágil. Relatos frequentes sobre a interrupção forçada de atos de campanha, a destruição de material de propaganda e agressões associadas ao uso de vestuário partidário revelam que a cultura política necessita de uma urgente reformulação ética.
A violência manifesta-se igualmente na linguagem. Nas redes sociais, o oponente político é recorrentemente adjetivado como inimigo ou traidor. O escrutínio a propostas de governação cede espaço a ataques ad hominem, devassando a vida pessoal, a origem familiar e as intenções de quem defende perspetivas alternativas.
Este discurso de ódio comporta perigos reais. A desumanização e a menorização verbal do adversário criam um ambiente propenso ao desencadear de agressões físicas, fragilizando o tecido social.
A intolerância política alimenta-se também do medo, da desinformação e da incapacidade de gerir a divergência. Para muitos cidadãos, admitir a validade de um argumento vindo do lado oposto é percecionado, erroneamente, como uma capitulação da sua própria identidade ideológica.
É neste ponto que a cidadania deve prevalecer sobre o partidarismo cego. A democracia pressupõe o desacordo e o pluralismo. O grande desafio coletivo consiste em aprender a gerir as diferenças sem transformar opiniões contrárias em cenários de conflito.
As repercussões dos episódios de tensão eleitoral ultrapassam os atores políticos imediatos. As crises pós-eleitorais e a instabilidade afetam a economia, os serviços públicos, o comércio, os transportes e o quotidiano das famílias.
Superar a intolerância exige uma atuação concertada. Os líderes partidários mantêm a responsabilidade acrescida de adotar uma linguagem moderada. Discursos ponderados contribuem para acalmar os ânimos, ao passo que retóricas agressivas inflamam divisões comunitárias difíceis de estancar.
Simultaneamente, as instituições do Estado — incluindo os órgãos eleitorais, as forças de segurança e o sistema judiciário — têm o dever de agir com estrita imparcialidade. A impunidade perante atos de violência ou intimidação envia uma mensagem perigosa de que o arbítrio pode ser instrumentalizado politicamente.
No plano individual, cada cidadão é chamado a refletir sobre os limites da sua fidelidade partidária. Apoiar um projeto político não exige o endosso de abusos nem justifica o desrespeito por quem discorda. A proliferação de notícias falsas e de mensagens de discórdia nas redes sociais exige ponderação antes de qualquer partilha.
Mais do que escolher entre formar militantes ou cidadãos, o sistema democrático necessita de militantes que sejam, primordialmente, cidadãos. Moçambique precisa de atores políticos ativos, de instituições respeitadas e de lideranças capazes de mobilizar sem disseminar o ódio. A maturidade de uma sociedade mede-se pela sua capacidade de acolher a diversidade e de reconhecer no adversário político um igual concidadão.
Fonte: Revista do tempo