Um novo estudo da Aliança para uma Revolução Verde em África (AGRA) aponta que cerca de 3,5 milhões de moçambicanos enfrentam atualmente uma situação de insegurança alimentar aguda. O quadro coloca o país entre os mais fragilizados do continente africano, fruto da combinação entre conflitos armados, instabilidade económica e crescentes adversidades climáticas.
O documento "Monitor de Segurança Alimentar", divulgado com dados referentes até ao mês de agosto, revela que cerca de 18% da população analisada vive em condições críticas de escassez alimentar. A província de Cabo Delgado e o norte de Nampula permanecem sob especial inquietação, em virtude das ações violentas que desestabilizam os meios de subsistência, inviabilizam o funcionamento dos mercados e dificultam o acesso a bens essenciais.
Apesar do alívio temporário proporcionado pelas reservas comunitárias e pela produção da segunda época agrícola, os peritos da AGRA preveem uma degradação do cenário nos próximos meses. O avanço do período de escassez, somado à perda do poder de compra das famílias e aos preços inflacionados dos produtos básicos, deverá atirar mais populações para o nível de crise alimentar até ao início do próximo ano.
No âmbito económico, o preço do milho — pilar da dieta nacional — registou uma ligeira descida mensal de 2% em agosto graças ao escoamento das colheitas, contudo permanece 10,7% mais caro em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em contrapartida, o arroz subiu 3,6%, pressionado pelos custos de importação e limitações na oferta local. Além disso, o valor do gasóleo continua 85% acima dos patamares de março, encarecendo diretamente os transportes e os custos de produção no campo.
A perspetiva meteorológica também gera forte apreensão na região da África Austral. O fortalecimento do fenómeno El Niño no Oceano Pacífico ameaça provocar temperaturas atipicamente elevadas e escassez de precipitação durante a campanha agrícola de 2026/27. Enquanto nações como a Zâmbia mantêm uma situação relativamente estável, Moçambique, Malawi e Zimbabué enfrentam elevados riscos de quebra na produção agrícola e consequente agravamento da fome.
Em termos continentais, o relatório sublinha que a crise alimentar atinge proporções ainda mais severas em zonas de conflito intenso, com destaque para a Nigéria, que contabiliza 36,3 milhões de pessoas em carência extrema, e o Sudão do Sul, com 7,8 milhões de afetados.