A redução global das verbas destinadas à assistência humanitária está a comprometer gravemente a proteção da infância em Moçambique. Um estudo internacional recente alerta para a diminuição substancial de profissionais qualificados e o cancelamento de serviços essenciais dirigidos a crianças em situação de extrema vulnerabilidade.
Os dados constam de uma nota analítica divulgada pela Global Protection Cluster (GPC), plataforma responsável pela coordenação da proteção humanitária global. A pesquisa teve como base um inquérito realizado junto de centenas de organizações que atuam em 22 palcos de crise, incluindo Moçambique, Ucrânia, Síria e Afeganistão.
Segundo o levantamento, cerca de 48,5% das entidades auscultadas reportaram impactos negativos diretos nos programas voltados para os menores. Do universo de organizações afetadas, 87% confirmaram cortes nas equipas de apoio direto no terreno, 84% reduziram os serviços prestados e 78% viram a sua área de cobertura geográfica substancialmente encolhida.
No caso específico de Moçambique — país duramente fustigado pela insurgência em Cabo Delgado e por recorrentes catástrofes naturais —, o relatório destaca a perda de técnicos de campo, gestores de informação e especialistas na coordenação de auxílio infantil.
O relatório da GPC enfatiza que a escassez de financiamento atinge o coração das operações de proteção, prejudicando áreas vitais como o apoio psicossocial, a reunificação de famílias separadas, o combate à exploração e os mecanismos de denúncia de violações dos direitos humanos.
As organizações não governamentais locais e nacionais figuram entre as mais prejudicadas pelos cortes orçamentais. Esta retração não significa apenas a diminuição da oferta de cuidados, mas também a rutura de laços comunitários e de relações de confiança fundamentais para salvaguardar as crianças em momentos de emergência.
A crise de recursos junta-se a um cenário já alarmante no território moçambicano, onde dados recentes das Nações Unidas apontam centenas de violações graves cometidas contra menores em zonas de conflito, abrangendo recrutamento forçado, raptos e violência sexual perpetrados por grupos armados.