Ângela Rodrigues, a responsável por conceber o desenho da primeira bandeira de Moçambique independente, partilhou um depoimento inédito sobre o processo de elaboração do pavilhão nacional, revelando que contava com apenas 17 anos de idade quando foi incumbida de apresentar as propostas para a bandeira que seria hasteada no histórico dia 25 de Junho de 1975.
De acordo com a autora, os acontecimentos remontam a Janeiro de 1975, em Dar-es-Salaam, na Tanzânia. Na altura, Ângela encontrava-se no Instituto Moçambicano a colaborar com Jorge Rebelo nos trabalhos preparatórios para a Independência, integrando a equipa encarregue de produzir um calendário ilustrado sobre a caminhada da luta de libertação nacional.
Foi nesse ambiente que Jorge Rebelo lhe propôs dedicar alguns dias para desenhar opções para a bandeira do novo país. Mesmo reconhecendo que não possuía dotes artísticos especiais, Ângela aceitou a tarefa com enorme entusiasmo, motivada pelo orgulho de dar o seu contributo para a edificação da pátria livre.
Ao longo de cerca de três dias, desenhou várias propostas em pequenos rectângulos de papel, respeitando rigorosamente a combinação de cores e a simbologia previamente estipuladas. Jorge Rebelo acompanhou a evolução do trabalho sem condicionar a criatividade e pediu-lhe que seleccionasse as seis versões mais bem conseguidas.
O momento decisivo deu-se num fim-de-semana, na residência temporária do Presidente Samora Machel, localizada em Oysterbay, Dar-es-Salaam. Após examinar com detalhe os seis croquis, Samora Machel escolheu uma das alternativas, virou a folha e escreveu no verso: “É muito bela”, colocando a sua assinatura logo abaixo.
A criadora recorda que o saudoso líder da FRELIMO a abraçou e repetiu a frase, num gesto afectuoso que guardou para sempre no coração. Para Ângela, aquele acolhimento constituiu um reconhecimento marcante, vindo de uma figura com uma capacidade ímpar de inspirar e mobilizar os moçambicanos.
No entanto, a dimensão real da sua obra só se revelou na noite da proclamação da Independência, a 25 de Junho de 1975, no Estádio da Machava. Ao ver o símbolo pátrio subir solenemente no mastro, sob os aplausos e a vibração de milhares de compatriotas, tomou consciência da honra de ter desenhado uma das maiores insígnias da soberania nacional.
No seu relato, a artista revelou ainda que só anos mais tarde soube que a tarefa de criar a bandeira também havia sido entregue a especialistas em marketing na Tanzânia, nomeadamente alemães da ex-República Democrática Alemã (RDA), no âmbito da cooperação solidária. Sem saber dessa concorrência, a jovem participou no processo em igualdade com propostas de nível profissional.
Ângela Rodrigues explicou que guardou esta história no foro privado durante décadas por considerar bastante o sentimento do dever cumprido. Contudo, fez questão de expressar a sua gratidão a Mariano Matsinhe, que presenciou o momento da escolha do desenho e registou a sua autoria no seu livro de memórias.
O depoimento resgata um capítulo vibrante da memória colectiva do país e enaltece o papel de uma jovem moçambicana na construção dos símbolos da nossa independência.